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DF: Cidade Estrutural completa 15 anos: conheça os desafios da mobilidade urbana local

Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Região administrativa comemora aniversário nesta sexta (22/2)


Há exatos 15 anos, a Lei Distrital nº 3315/04, assinada pela então vice-governadora Maria de Lourdes Abadia, era publicada. O documento transformava em região administrativa o Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA) – criado em 1989. A esse setor, estava vinculada a então “Vila Estrutural”. O conjunto de habitações se iniciou-se em função do lixão da Estrutural: uma invasão de catadores se formava naquele local.

Ao longo desse período, a situação do local mudou bastante. A “vila” ganhou o status de cidade, onde vivem pouco mais de 35 mil pessoas segundo a Codeplan. O lixão que deu origem à cidade já não existe mais, sendo desativado completamente em 2018. A maior parte das vias na cidade já conta com infraestrutura, como asfalto e calçadas. Mas, assim como nas demais regiões do DF, Cidade Estrutural precisa vencer alguns desafios em mobilidade urbana. O BSB Mobi foi até o local e conta quais são.

Um deles – e talvez o principal – é a questão da segurança pública no transporte coletivo. A vendedora Luana Brito mudou sua rotina para se sentir mais segura. Ela mora próxima a um dos pontos por onde passa o transporte coletivo. Porém, temendo os assaltos, a vendedora caminha cerca de 20 minutos até o terminal rodoviário, localizado próximo à Via Estrutural (EPCL/DF-095), e lá pegar a sua condução com destino à Taguatinga. Mas esse cuidado não foi suficiente para impedir que Luana fosse assaltada no interior de um ônibus. “Dois caras estavam numa parada, deram sinal para o ônibus parar, entraram e levaram minha bolsa”, descreve.

Quando o assunto é segurança pública, os moradores são bem claros: pedem mais policiamento. “Quando acontece alguma coisa aqui, algum assalto, a polícia fica aqui um ou dois dias e depois vai embora”, revelou o marceneiro Wagner Santos. De acordo com a Polícia Militar do Distrito Federal, em 2018 foram registradas 178 ocorrências de assaltos a ônibus em Estrutural. No ano de 2017, no entanto, o número foi 57% menor, chegando a 102 casos, Já em 2016, houve 226 roubos a coletivos.

A cidade é atendida por 15 linhas de ônibus. Oito delas seguem para o Plano Piloto (0,158, 158,1, 158,2, 158,3, 158.4, 158.5, 158.6 e 158.7), três para Ceilândia (154.5, 154.6 e 0.159, todas passando por Taguatinga), duas para o Guará (157.8 e 157.9), uma para Candangolândia (158.8) e uma linha radial para Águas Claras (154.7).

Ao todo, 15 linhas de ônibus atendem à Cidade Estrutural. Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Webert Moisés trabalha em Águas Claras, em um shopping às margens da EPTG. Ele comenta que durante o dia, conta com bastante opções de horários, mas à noite a realidade não é a mesma. “Quando eu saio do trabalho, já são 22h, 22h30 e não tem tantas opções. Já cheguei a ficar aguardando até 40 minutos por um ônibus”, afirma,

A frequência desses coletivos é questionada pelos moradores. Encontramos o lavador de carros José Pinheiro, que aguardava há mais de 30 minutos por um ônibus em direção ao Guará. Ele conta que nos fins de semana, a espera é muito maior. “O único lugar para onde tem muito ônibus é Taguatinga”, comenta o morador. Ele diz ter de pegar um ônibus até Taguatinga para depois pegar uma segunda condução até o Guará. “Tenho de fazer isso senão eu não saio do lugar”, completou.

O que diz o especialista?

A professora do curso de Arquitetura e Urbanismo do UniCEUB, Ana Paula Borba, comentou a situação da mobilidade urbana na cidade. Para a docente, o fato de a cidade contar com mais da metade da rede de linhas em direção ao Plano Piloto revela muito sobre a relação dos moradores da cidade com Brasília.

A professora também explica que a distância máxima recomendada a ser percorrida em um trajeto a pé (seja de casa, trabalho, escola) até um ponto de ônibus é de 250 metros. Mas de acordo com Borba, essa distância não é observada nem na região central da cidade. “Por exemplo, alguém que esteja na 2ª Igreja Batista da Estrutural, situada na Quadra 6, conjunto G, deverá se deslocar a pé, por cerca de 330 metros para o ponto de ônibus mais próximo quer seja na Quadra 9, quer seja na SCIA Q2”, descreveu.

Mapa descrito pela professora de Arquitetura e Urbanismo do UniCeub, Ana Paula Borba. Imagem: Google Maps

Na análise da professora, se essa é a realidade do centro urbano, na periferia o cenário se agrava, pois a distância percorrida por lá pode ser maior. “Esta distância sendo percorrida sob condições normais já não é considerada agradável, deve-se imaginar sob condições adversas, como chuva, sol forte, com compras, com problemas de locomoção temporárias ou permanentes, etc”, conclui Borba.

Ana Paula observa que, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2015, a Estrutural apresenta um índice de 6,58% de pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte. Isso representa cerca de 1.040 pessoas que se valem da bike para os seus deslocamentos. Apesar de haver infraestrutura, como asfalto em boa parte da cidade, as autoridades devem pensar nas pessoas que andam de bicicleta pela cidade. “Deve-se visar, principalmente, a construção de calçadas e ciclovias de modo a atender todos os usuários de bicicletas, pois em algum momento do dia todos somos pedestres, inclusive os motoristas que precisam complementar os seus deslocamentos”, reitera.

Cerca de 6,6% das pessoas utilizam a bicicleta para se deslocar em Cidade Estrutural. Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Por fim, a professora sugere que o governo analise os dados gerados pelo próprio poder público, sejam da PDAD (Pesquisa Distritral por Amostra de Domicílio), para fins de mobilidade, sejam do Detran, no que se refere aos acidentes e, em seguida, realizar pesquisas na própria área de modo a observar as suas dinâmicas e conhecer as necessidades da população por meio de entrevistas e questionários. “É necessário também focar os esforços de melhoria no deslocamento das massas, quer seja a pé, quer seja de transporte coletivo público, pois não adianta criar mais vias, pontes e viadutos para os carros, uma vez que estes transportam um número muito reduzido de pessoas, é necessário pensar nos deslocamentos da maioria da população”, conclui.

O que dizem as autoridades

Os órgãos responsáveis responderam aos questionamentos do BSB Mobi. Confira abaixo o que eles dizem quanto à mobilidade urbana em Cidade Estrutural:

  • Secretaria de Transportes e Mobilidade

De acordo com a Secretaria de Transporte e Mobilidade, são prioridades da pasta “oferecer um transporte público de qualidade e facilitar o deslocamento de pessoas nas cidades”. A secretaria destaca que a Cidade Estrutural e as demais regiões administrativas seguem recebendo investimentos na área, “o que vai proporcionar mais conforto, comodidade e segurança aos moradores”.

Ainda segundo a Secretaria de Transporte, recentemente foi realizada a chamada “oficina de mobilidade ativa”, que contou com a participação de boa parte da sociedade, além de lideranças comunitárias. Através dessa reunião, foram criados dois mapas, sendo o primeiro com as principais rotas de ciclistas e o segundo com a proposta de infraestrutura para a região. Com isso, a pasta desenvolveu um projeto executivo com 5,16 km de ciclovia que ligam a Cidade Estrutural/SCIA ao SIA e à Octogonal.

“A ciclovia ligando a Estrutural pela Estrada Parque Vale (EPVL) à ciclovia da Estrada Parque Taguatinga (EPTG) foi construída. Foi realizada ainda a reprogramação de serviço de transporte público e a instalação de abrigos de ônibus na Cidade Estrutural e SCIA, oferecendo mais conforto e melhoria na prestação do serviço”, destacou a Semob.

Quanto a questão de ônibus, a pasta destaca que a renovação da frota beneficiará a cidade com ônibus novos. A secretaria promete melhorar o atendimento na cidade com o aumento das integrações. Há ainda a previsão de implantação de uma nova faixa exclusiva na Via Estrutural. “Serão desenvolvidos estudos para implantação de faixa exclusiva para transporte coletivo na Estrada Parque Ceilândia, o que impactará de forma positiva no atendimento à Cidade Estrutural”, conclui.

  • Secretaria de Segurança Pública

Já a Secretaria de Segurança Pública garante que realiza operações ostensivas para reforçar a segurança do transporte coletivo. “A Polícia Militar realiza, em todo o Distrito Federal, a ‘Operação Anjo da Guarda’, na qual equipes de GTOP realizam abordagens a coletivos e a pessoas em paradas de ônibus e seus arredores. A PMDF realiza também a ‘Operação Parusia’que utiliza motociclistas e viaturas para fazerem rondas periódicas em paradas e terminais de ônibus e abordagens em coletivos”, diz a SSP.

Esses trabalhos da PM influenciam diretamente, de acordo com a secretaria, na diminuição dos índices criminais, entre eles os roubos a coletivo. “Durante o ano de 2018, as equipes do 15º Batalhão, responsáveis pela área da Cidade Estrutural, detiveram 868 autores ou suspeitos de crimes e apreenderam 69 armas”, afirma a nota enviada ao BSB Mobi.

  • Secretaria de Obras e Infraestrutura

Ao BSB Mobi, a Secretaria de Obras e Infraestrutura informa que não há previsões, por hora, de obras na região administrativa. As ações realizadas pela pasta, não só em Estrutural, mas nas outras RA’s, estão focadas no programa SOS-DF, criado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB). Os serviços consistem em “tapa buraco, limpeza de bueiros, retirada de entulhos, pintura de meios-fios, limpeza e revitalização de sinalização vertical e horizontal de trânsito, combate à poluição visual, troca de lâmpadas queimadas, entre outros”.

Higor Viana

Jornalista formado desde 2017, atua como repórter e assessor de imprensa. Editor-chefe do site Bsb Mobi.

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