Especial Opinião

Governo precisa ampliar acesso à bilhetagem automática no DF

Foto: Tony Winston/Agência Brasília

Somente as prisões dos fraudadores, executadas de maneira acertada pela polícia, não combatem o problema da fraude no bilhete único


Desde que o Governo do Distrito Federal se propôs a alterar a concessão do Passe Livre Estudantil, muito se fala em combater as fraudes no sistema de bilhetagem automática. Desde a semana passada, a polícia, em parceria com auditores fiscais da Secretaria de Transportes e Mobilidade, efetua prisões contra fraudadores do bilhete único.

Somente no último dia 14, quatro pessoas foram presas na Rodoviária do Plano Piloto acusadas de cometer o delito. No dia seguinte, mais dois foram detidos no mesmo local pelo mesmo motivo. Não há porque questionar a ação da polícia, que acertou em cheio na execução dessas prisões. Mas somente isso não combate o problema da fraude nos cartões de passagem do DF.

O modus operandi das pessoas detidas era o mesmo. Próximo à entrada do BRT, elas oferecem aos passageiros o acesso ao transporte em troca do valor da tarifa em dinheiro (neste caso, R$ 5,00). Fazendo isso repetidas vezes durante o dia, o valor faturado acaba sendo alto.

Mas quem compra os acessos dos fraudadores? Pessoas comuns, passageiros que não tem um cartão próprio do bilhete único para andar no BRT ou que tem um cartão que apresentou algum tipo de falha. E por que essas pessoas não tem um cartão próprio? Os poucos pontos de aquisição do bilhete único podem explicar a situação.

No DF existem apenas 33 pontos de recarga ou aquisição do Bilhete Único. Eles estão nas estações do metrô, algumas rodoviárias (Plano Piloto, Taguatinga, Planaltina, Sobradinho e terminal Veredas, de Brazlândia) e terminais do BRT (Santa Maria, Gama e Park Way).

Podemos citar o exemplo de quem mora no Setor QNR, em Ceilândia. Apesar da cidade contar com cinco estações de metrô que funcionam como pontos de recarga e aquisição do bilhete único, o morador da localidade teria que se deslocar mais de 6 km até a estação do metrô mais próxima, em Ceilândia Norte próximo ao Setor “O”. Esse é apenas um dos inúmeros exemplos espalhados pelo DF.

E como incentivar a aquisição do bilhete único? Facilitando o acesso ao mesmo. Em Goiânia (GO), por exemplo, é possível recarregar o SitPass (bilhete único de Goiânia e região metropolitana) com mais facilidade. O cartão pode ser recarregado nos terminais e em comércios mais variados dentro da cidade. Inclusive, qualquer comerciante pode se cadastrar para também se tornar um ponto de recarga do SitPass.

Em São Paulo (SP), a situação é semelhante a da capital goiana. Os comércios também são pontos de recarga do bilhete único paulista. Em farmácias, padarias, supermercados, lotéricas, bancas de jornal, mercearias, o passageiro pode abastecer o cartão para utilizá-lo no sistema de transporte público municipal.

Fica a dica para a Secretaria de Transportes e Mobilidade do DF: por que não abrir essa possibilidade ao comércio local? Se existe algum projeto neste sentido, quando será implantado?

Um detalhe também merece atenção: o metrô também funciona no esquema de estações. Ou seja, dentro do transporte, não existe a figura do cobrador que recolhe o pagamento das passagens em espécie. Todas as prisões e flagrantes de inúmeras equipes de reportagem ocorrem sempre próximo ao BRT e nunca no metrô. Por quê?

A resposta é simples: além do sistema de segurança gerenciado pela Companhia do Metropolitano, que impede a ação dos fraudadores, o Metrô oferece a compra da passagem para quem não possui o bilhete único. A pessoa compra, por R$ 5,00, um cartão na bilheteria das estações. Ele é depositado na catraca do transporte e o usuário tem um acesso.

Isso não ocorre no BRT, onde a pessoa tem de ter, obrigatoriamente, um cartão para viajar nos ônibus do sistema. Para piorar a situação, esse é o único meio de transporte disponível em direção ao Gama e Santa Maria. Isso obriga quem não tem o cartão a recorrer ou a um passageiro aleatório, para o qual reembolsa os R$ 5,00, ou mesmo aos fraudadores do bilhete único que se amontoam na porta do BRT aguardando os seus “clientes”.

Sabe-se que o sistema de BRT não tem (e não pode ter) um cobrador embarcado no ônibus para arrecadar o dinheiro das passagens. Mas o bilheteiro das estações também não fazem essa tarefa e poderiam fazê-lo para o passageiro que circula apenas com dinheiro em espécie. Essa seria uma opção para que os passageiros não ficassem a mercê dos fraudadores.

Outra questão que faz urgente a necessidade dessa ampliação é a transformação gradativa do sistema radial em um sistema tronco-alimentado. Trocando em miúdos: há a tendência de o transporte entre as cidades-satélites e o Plano Piloto (ou mesmo entre satélites mais afastadas) ser feito por meio de baldeações (integrações) e não mais por linhas diretas.

Isso significa que o passageiro terá de pegar mais de um ônibus para chegar em seu destino. Esse sistema é o mesmo adotado em Planaltina nos horários de entre-pico. A pessoa, em qualquer bairro da cidade, pega um ônibus que vai até a Rodoviária de Planaltina. De lá, ela embarca em uma das três linhas disponíveis em direção ao Plano Piloto (600.7, 620.1 e 640.2).

Para que o governo implante esse sistema em todo o DF é necessário que a população tenha fácil acesso aos cartões bilhete único. Pois com um ônibus direto, o passageiro gasta o máximo de R$ 5,00. Já se o pagamento de uma viagem com três ônibus for feito em espécie, esse valor pode até triplicar

A análise que fazemos é de que a Secretaria de Transportes e Mobilidade deve dar sequência às prisões dos fraudadores da bilhetagem automática. Mas também precisa pensar, para ontem, em um meio de ampliar o acesso ao bilhete único para os passageiros de um modo geral. Assim, teremos menos chances dos fraudadores se multiplicarem.

Higor Viana

Jornalista formado desde 2017, atua como repórter e assessor de imprensa. Editor-chefe do site Bsb Mobi.

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