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DF: Sol Nascente e Arniqueira precisam vencer desafios em mobilidade urbana

As regiões administrativas foram instituídas em agosto deste ano


No mês de agosto de 2019, o Distrito Federal passou a ter mais duas regiões administrativas. Em 14 de agosto, o governador Ibaneis Rocha (MDB) sancionou a criação da 32ª R.A. do DF, Sol Nascente e Por do Sol. A partir daquele momento, as localidades deixam de estar ligadas à Ceilândia. Já no dia 28 do mesmo mês, Arniqueira se tornou a região administrativa de número 33.

As iniciativas para a criação de ambas partiram do Poder Executivo, que enviou à Câmara Legislativa Projetos de Lei para serem avaliados pelos deputados distritais. Na casa, os PLs foram aprovados nas comissões até chegar ao Plenário. Todavia, apenas a legalização das duas regiões não resolve os problemas das localidades, embora seja o primeiro passo para deixar uma estrutura do governo mais próxima das comunidades.

Um dos muitos desafios a ser vencidos é na questão mobilidade urbana. Em Sol Nascente, a reportagem do BSB Mobi encontrou a pensionista Dinalva Garcia. Ela classificou o transporte público como “uma porcaria”, especialmente com idosos. “Porque as mocinhas que estão de shortinho, os motoristas param em qualquer lugar, mas já cansei de parar os ônibus para as senhoras idosas”, relata.

A estudante Andressa Santos faz parte dos 15,2% da população de Sol Nascente e Por do Sol que utilizam automóveis para ir até a escola ou curso segundo a Codeplan. Ela estuda em Ceilândia e opta pelo carro, que é dirigido pelo pai, por considerá-lo mais seguro que o transporte público. “Meu pai faz questão de me buscar e me levar [para a escola] porque acha [o transporte coletivo] perigoso”, afirma.

Já Ester Araújo, desempregada, avalia positivamente o serviço de transporte coletivo. Na opinião dela, os ônibus passam toda hora para os lugares que ela quer ir, especialmente Taguatinga e Ceilândia. “Não tenho nada que reclamar”, diz ela, que afirma sempre optar pelo transporte regular.

A monitora de transporte escolar Léia Miranda mora na localidade há 19 anos. Ela faz uma ressalva sobre os horários do transporte público: “Tem determinados horários que os ônibus só entram aqui e, se você quiser sair, demora um pouquinho”, afirma. Os horários em que isso acontecem são meio-dia e ao fim da tarde.

Linha 0.159. Recentemente, o trajeto, com origem na Cidade Estrutural foi alterado. Passou a ter como destino o Sol Nascente. Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília

Em Arniqueira, os moradores e trabalhadores também avaliam a mobilidade local. Yasmin Rocha trabalha no Guará II e pega o seu ônibus na via EPNB, que é distante de sua casa. “Perto de onde eu moro passam poucas linhas, somente para Águas Claras e Taguatinga Centro”, conta ela.

O motorista Vilmar Pereira, que mora no Riacho Fundo I, vai até o trabalho em Arniqueira a pé. Todavia, ele ressalta que são poucas as linhas de ônibus que atendem a nova R.A.. “Eu acho que não tá muito bom, passa poucos [coletivos] aqui, apenas de hora em hora”, ressalta. Pereira também diz que as pessoas que querem viajar para outras localidades que não sejam Taguatinga e Ceilândia tem de ir até a EPNB.

O estudante Guilherme Fernandes afirma que nunca teve problemas para pegar conduções, pois há transporte para os lugares que ele vai. “Os ônibus sempre passam nos horários. Eu pegava ônibus de manhã às 6h55. Se eu perdesse esse, o próximo passava às 7h20”, comenta.

Yasmin Rocha mora em Arniqueiras e pega na EPNB o ônibus sentido Guará II, onde trabalha. Volta para casa de carro. Foto: Higor Viana/BSB Mobi

O que diz a especialista?

As duas regiões surgiram de loteamentos irregulares, sem qualquer tipo de planejamento. Esse fato interfere diretamente na produção de políticas voltadas à mobilidade urbana. Essa é a análise da arquiteta urbanista Ivelise Longhi.

“Uma área quando é planejada, segue normas quando da elaboração de seu desenho. Normas que determinam a largura e a hierarquia das vias, largura de calçadas, tamanho mínimo de lotes, definição das áreas destinadas a habitação, comércio, escolas, equipamentos de saúde, cultura, lazer, dentre outros”, destaca.

Segundo ela, quando esses critérios não são obedecidos, o planejamento urbano fica ruim. “Um loteamento irregular , em sua maioria, não respeita nenhuma destas regras. Isso resulta em vias estreitas onde não passam, por exemplo, caminhões de lixo, ônibus e às vezes, nem carro. Consequentemente o sistema de mobilidade é extremamente precário”, resume.

Por exemplo, em Arniqueiras, que era um assentamento rural, as ruas existentes não foram planejadas para comportar o atual tráfego, lembra Ivelise. Para ela, a regularização da região é o ponto chave para que o Governo possa seguir com as obras de infraestrutura nas duas localidades.

“A Terracap, responsável pelo projeto de regularização de Arniqueira, vem elaborando os estudos adequados. A partir do projeto é que a infraestrutura poderá ser finalizada. Vias transitáveis, calçadas construídas, facilitam a mobilidade urbana e aliadas à saneamento e abastecimento de água e energia elétrica irão garantir às pessoas exercerem o direito à cidade, que é o direito a morar em um lugar mais digno”, destaca Ivelise.

Ela também destaca que o fortalecimento à economia na comunidade é um meio de facilitar a mobilidade dos moradores. “A necessidade de deslocamento casa-emprego, principalmente, exige do Estado maiores intervenções, mais linhas de transporte público, ligações viárias melhores”, ressalta. Ela sugere ainda a criação de áreas de desenvolvimento econômico mais próximas ao local onde as pessoas moram, “para que os deslocamentos sejam menores e as pessoas não gastem tanto tempo se locomovendo”.

“À medida que empregos são gerados no próprio local acarreta menores deslocamentos da população para acessar suas necessidades básicas e economia com transportes.”

Uma alternativa apontada por Ivelise é a integração entre os modais de transporte público, com a participação do Metrô-DF. Ela, que já foi presidente da estatal entre 2013 e 2014, afirma que o transporte tem capacidade para absorver a demanda de passageiros que chegam até as estações através de linhas de integração.

“Sempre fui favorável à integração entre os diversos sistemas de mobilidade, seja sobre trilhos ou sobre rodas, bicicletas e calçamento adequado das áreas. Com certeza linhas de integração ao Metro serão bem-vindas e melhorará a acessibilidade das pessoas”, afirma.

A arquiteta urbanista Ivelise Longhi foi presidente do Metrô entre 2013 e 2014. Ela acredita que o transporte tem capacidade de absorver a demanda de passageiros de Sol Nascente e Arniqueiras através de linhas de ônibus até as estações. Ela é favorável à integração dos modais. Foto: André Borges/Agência Brasília

Distrital defende a criação de novas regiões administrativas

Um dos deputados distritais que votou favorável à criação das regiões administrativas foi João Cardoso (Avante). O distrital concedeu entrevista exclusiva ao BSB Mobi, e disse que a criação das estruturas faz com que os serviços públicos fiquem mais próximos da comunidade. “Nós temos uma casa pra limpar. Você fica com a parte de cima e eu com a parte de baixo. Não fica mais fácil?”, compara.

Ele exemplifica com o caso de Sol Nascente. “Com o crescimento de Ceilândia, penso que a administração, em questão de equipamento e pessoal, já não é mais suficiente para dar um bom atendimento à população”, pontua. “Imagina um administrador sozinho olhar para os problemas das duas regiões? Agora vamos ter mais pessoal para dar uma atenção à questão de infraestrutura.”

Cardoso destaca ainda que, por conta da falta de planejamento, muitas ruas acabaram ficando estreitas demais, dificultando o trânsito até de carros de passeio. “O ônibus não vai conseguir entrar em todas as ruas, porque elas não foram planejadas e, com isso, causou esse problema de mobilidade”, pontua o distrital.

João Cardoso garante que vai fazer uma “incursão”, de caráter técnico, em cada região administrativa nova que surgir. “Vamos visitar o local com os técnicos que nós temos e, caso tendo e o governo liberando, vamos encaminhar emendas parlamentares”, afirma Cardoso.

Ele afirma também que pode sugerir ao Executivo a instalação de uma Área de Desenvolvimento Econômico (ADE) dentro da poligonal do Sol Nascente, visto que há espaço para isso, assim como aconteceu em Sobradinho, iniciativa bem sucedida segundo o parlamentar. “Indústrias, grandes oficinas, distribuidoras vão se instalar e consequentemente vai gerar empregos”, enumera.

Outra nova região que deve ser implantada é Arapoanga, que pode se separar de Planaltina. A área engloba o bairro, o Vale do Amanhecer, e os núcleos rurais Rajadinha e Pipiripau. João Cardoso promoveu uma audiência pública na região e questiona. “Eu não entendo por que o governo não escutou essa petição que nós fizemos. A maior R.A. que nós temos hoje é a de Planaltina”, afirma. 

Em entrevista ao BSB Mobi, o deputado distrital João Cardoso defendeu a criação de novas regiões administrativas. Votou favorável à instituição de Arniqueiras e Sol Nascente como R.As.. Foto: ASCOM

Novo administrador regional destaca prioridades para Sol Nascente

Em Sol Nascente e Por do Sol, a administração regional está a cargo de Goudim Carneiro. Em entrevista ao BSB Mobi, o novo gestor, que mora na localidade há 26 anos, disse que a cidade foi construída ‘de trás pra frente’, sem o devido planejamento, e que isso acarreta algumas questões.

“O Estado poderia ter vindo na frente determinando regras e construindo uma cidade em cima de um projeto”, avalia Goudim. “E hoje o Estado tem que ir pra consertar e aí há uma série de dificuldades”, prossegue, dizendo que a cidade precisa ser ‘reconstruída’. Para tanto, o Estado deveria se instalar e oferecer serviços públicos de qualidade, diz o administrador.

Goudim faz um alerta: “Se o Estado não conseguir se instalar no local para começar a consertar tudo isso, daqui a pouco não terá mais espaço – porque está sendo preenchido – e as milícias podem tomar de conta e determinar as regras”, afirma.

Quanto à questão da mobilidade urbana, Carneiro relembra que “o Sol Nascente é uma cidade diferente e precisa de um tratamento diferente”. “Se temos uma rua que não é asfaltada e o transporte público não entra porque a rua está fora da poligonal, nós precisamos atender aquela população”, ressalta. “O que não dá é pra penalizar mais ainda aquele povo que já é penalizado.”

Carneiro diz que reuniu a comunidade e discutiu com ela, chegando a 10 projetos prioritários. Destes, o administrador destaca um: a criação de uma avenida interligando os trechos do Sol Nascente. “Nós temos o trecho 1, 2 e 3 do Sol Nascente, além do Por do Sol, e um não dá acesso ao outro”, exemplifica.

Quanto ao transporte urbano, Carneiro diz que a cidade enfrenta dificuldades quanto ao transporte pirata. Isso acontece devido à falta de infraestrutura, que faz com que os ônibus não cheguem a todas as regiões e por causa do risco de assaltos, que faz o transporte público não circular em determinados horários. “As pessoas preferem andar de forma regularizada”, garante. Mas, para combater o transporte irregular, ele ressalta que o transporte público tem de atender decentemente.

Goudim Carneiro ao lado do governador Ibaneis Rocha. Eles comemoram a criação da região administrativa Sol Nascente/Por do Sol durante uma sessão itinerante da Câmara Legislativa. Foto: Renato Alves/Agência Brasília

Versão oficial

Secretaria de Transporte e Mobilidade

Questionado quanto aos assuntos levantados pela reportagem do BSB Mobi, a secretaria de Transporte e Mobilidade esclarece que “efetivou melhorias nas linhas de ônibus para a população do Sol Nascente, por meio de mudanças em duas linhas de ônibus“. Uma delas é a 0.159, que passou a chegar até o Condomínio Pinheiros. Segundo a pasta, a linha faz 140 viagens diárias, sendo 70 em cada sentido.

A outra é a 0.089, que deixou de começar e encerrar viagens no setor “M” Norte, passando a fazer isso no terminal do “P” Sul. O trajeto inclui agora o Trecho 1 do Sol Nascente. São 45 viagens nos dias úteis, 33 viagens aos sábados e 25 aos domingos de acordo com a Semob.

Quanto à queixa de que os coletivos não estariam embarcando passageiros, a pasta orienta “que o usuário registre o ocorrido pelo número 162 com informações indicando a data, a hora, a linha e o número do veículo para acompanhar a linha e tomar as devidas providências. Se for constatada a irregularidade, a empresa será multada”.

Em relação à situação de Arniqueiras, a Semob explica que a região é atendida por 20 linhas de ônibus, sendo que, dentre elas, há trajetos que fazem até 55 viagens diárias. “É importante destacar que as pessoas que tem o cartão do bilhete único podem fazer integração, utilizando uma linha circular para ir até uma estação do Metrô, ou mesmo as paradas da EPNB e EPTG, onde podem acessar outras linhas. A integração permite até 3 embarques em um único sentido, no período de até 3 horas, com o valor máximo de tarifa de R$5,00”, diz a secretaria.

Secretaria de Obras

Já a secretaria de Obras explicou que as obras no Sol Nascente devem ser entregues em sua totalidade em 2021. “Até o momento, no Trecho 3 do Setor Habitacional, foram executados 41% das obras de drenagem e 12% de pavimentação. Estão sendo investidos R$ 66 milhões para a execução de 21,3 km de redes de drenagem, com três lagoas de retenção, pavimentação de 56 km de vias de 7 metros de largura, além de meios-fios e calçadas. As obras foram iniciadas em 2018”, explica a pasta.

No Trecho 2, afirma a secretaria, “os serviços compreendem a execução de 30,3 km de redes de drenagem, a construção de três lagoas de retenção, além da pavimentação de 70 km de vias de 7 metros de largura. Os serviços de drenagem estão em andamento, tendo sido executados 90% do total. Quanto à pavimentação, 65% já foi executada. Neste trecho estão sendo investidos R$ 95,5 milhões”.

O Trecho 1, diz a pasta, já está pronto. “O previsto em contrato foi totalmente executado. Foram investidos R$ 58,8 milhões na execução de 25,2 km de redes de drenagem, 3 lagoas de detenção e 6 lançamentos diretos; 304.900 m² de vias, equivalentes a 44 km de vias de 7 metros de largura  (243 ruas pavimentadas); 64 km de meios-fios e 1.150 metros de calçadas em uma área de 240 hectares”, conclui.

Higor Viana

Jornalista formado desde 2017, atua como repórter e assessor de imprensa. Editor-chefe do site Bsb Mobi.

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